UMA LEITURA DA AUTOBIOGRAFIA DE SARAH KOFMAN:

A VIAGEM SEM VIAGEM

 

Paula Glenadel – UFF

 

 

O texto autobiográfico da filósofa Sarah Kofman, Rue Ordener, rue Labat, coloca em cena o que poderíamos chamar de “paradoxo da viagem”. Segundo este paradoxo, que ameaça a própria definição de viagem, é possível viajar sem viajar, assim como também é possível não viajar viajando. A viagem é, primeiramente, no sentido corrente do termo, o “caminho que se faz para ir de um lugar a outro lugar que fica afastado”[1]. De início, portanto, a partir da sua definição, o deslocamento espacial é parte inseparável do movimento contido na idéia de “viagem”. Entretanto, sentidos segundos e terceiros de viagem propõem ou sugerem uma modificação nessa significação. A viagem pode, então, aparecer como movimento transformador da estrutura do sujeito: o lugar do deslocamento passa a ser o próprio “sujeito”. É o caso das viagens “filosóficas” do século XVIII, quase-gênero literário, de que são exemplos certos contos de Voltaire e Diderot (viagens imaginárias ao Oriente, ao Taiti, e até interplanetárias). O deslocamento “real” passa a ser o menos importante nesses textos, cuja preocupação com o “realismo” aproxima-se de zero.

Inscrevendo-se na linha desse interessante paradoxo, no início dos anos 80 de nosso século, os pensadores Gilles Deleuze e Félix Guattari propõem, em Mille plateaux, a conceitualização de um certo nomadismo que se revela bastante fecunda para pensar certas configurações da cultura e da arte, em função da necessidade de transvaloração de estruturas de valores demasiado rígidas. Assim, afirmam eles,

 

Il y a longtemps que Fitzgerald disait: il ne s’agit pas de partir pour les mers du Sud, ce n’est pas cela que détermine le voyage. Il y a non seulement d’étranges voyages en ville, mais des voyages sur place: nous ne pensons pas aux drogués, dont l’expérience est trop ambiguë, mais plutôt aux véritables nomades. C’est à propos de ces nomades qu’on peut dire, comme le suggère Toynbee: ils ne bougent pas. Ils sont nomades à force de ne pas bouger, de ne pas migrer, de tenir un espace lisse qu’ils refusent de quitter, et qu’ils ne quittent que pour conquérir et mourir. Voyager sur place, c’est le nom de toutes les intensités, même si elles se développent aussi en extension. Penser, c’est voyager, et nous avons essayé précédemment de dresser un modèle théo-noologique des espaces lisses et striés. Bref, ce qui distingue les voyages, ce n’est ni la qualité objective des lieux, ni la quantité mesurable du mouvement – ni quelque chose qui serait seulement dans l’esprit – mais le mode de spacialisation, la manière d’être dans l’espace, d’être à l’espace. (DELEUZE e GUATTARI, 1980, p. 602)

 

“Voyager sur place”, viajar in loco, eis, portanto, o horizonte desse paradoxo da viagem. “Penser, c’est voyager” - a formulação um pouco “programática”, como pode ocorrer em Deleuze e Guattari, tem, contudo, a vantagem de promover uma espécie de “curto-circuito” conceitual, pelo brusco acoplamento de elementos heteróclitos. A viagem torna-se, assim, um modo, uma experiência do pensamento que não exclui o corpo, tomado por essa intensidade inquietante.

Movimento semelhante ocorre no texto autobiográfico da filósofa Kofman, em que o corpo reaparece insistentemente para pontuar e sugerir caminhos para o pensamento. Várias partes do texto são dedicadas à descrição dos processos que envolvem a troca de uma alimentação por outra, um regime alimentar estando metonimicamente por uma cultura, decerto, mas com total envolvimento corporal do sujeito que se constrói/descontrói entre os dois pólos. O vômito, reação a essa oscilação, é um sintoma do corpo em viagem, da perda do equilíbrio habitual.

 

Eu tive que me acostumar com um novo regime alimentar. A carne sangrenta tinha-me sido sempre proibida. Na rua Ordener, na cozinha, minha mãe deixava escorrer durante horas pedaços de carne de boi salgada que ela fervia em seguida. Na rua Labat, eu tive que me “refazer a saúde” comendo carne de cavalo crua, dentro dum caldo. Tive que comer carne de porco e me “acostumar” com a cozinha à base de banha.

Eu vomitava freqüentemente e vovó ficava com raiva; eu nem conseguia engolir os comprimidos de lacteol que ela me dava para facilitar a digestão. Meu corpo, a seu modo, recusava essa dieta que me era tão estranha e que só podia me inquietar. (Cap. XII)[2]

 

A viagem do texto de Kofman, em sua especificidade, diz respeito primordialmente à travessia qualitativa de dois limites de intensidade diferentes. Como viajar entre duas ruas, apenas uma estação de metrô (“Uma estação de metrô separa a rua Ordener da rua Labat. Entre as duas, a rua Marcadet: ela me parece interminável e eu vomito durante todo o trajeto.” Cap. IX), e realizar nesse percurso uma distância absoluta, irredutível, entre duas regiões da vida? Uma distância que não se deixa inscrever uma exata separação entre um antes e um depois (pois há “recaídas”, retomadas), entre judaísmo e cristianismo? Como avaliar o deslocamento “existencial” implicado no processo (que atinge um máximo) em função do deslocamento “geográfico” (que é mínimo, minimalista)?

Seria simples se se pudesse dizer: ao final do processo, a pequena Sarah libertou-se da ortodoxia judaica, da personalidade tirânica de sua mãe, de suas chicotadas; ou, ao contrário, a pequena Sarah foi “seqüestrada” pela senhora da rua Labat, que a desviou de sua identidade judaica, que a privou dela. Mas o processo se complica, pois há dois vetores, duas linhas de fuga, uma encruzilhada. Existe, no texto, uma indiscernibilidade dos espaços “liso” e “estriado”, dos fluxos da reterritorialização e da desterritorialização. Deleuze e Guattari insistem na idéia de que há contaminação entre as duas dinâmicas:

 

Il faut penser la déterritorialisation comme une puissance parfaitement positive, qui possède ses degrés et ses seuils (épistrates), et toujours relative, ayant un envers, ayant une complémentarité dans la reterritorialisation. Un organisme déterritorialisé par rapport à l’extérieur se reterritorialise nécessairement sur ses milieux intérieurs. (DELEUZE e GUATTARI, 1980, p.71)

 

Pois, se é certo que poderia ser revolucionário deixar a casa materna/paterna, seu rigor, sua ortodoxia, com a senhora da rua Labat rapidamente o mapa se refaz: um nome novo para Sarah (Suzanne), uma nova dieta (“Mas, logo, vovó declarou que a comida da minha infância era perniciosa para a saúde; eu estava pálida, ‘linfática’, era preciso mudar meu regime.” Cap. XII), uma nova família (pois a senhora se faz chamar “vovó” pela menina, e a leva para festas de sua própria família).

Obviamente, não depende unicamente da menina a escolha entre todas essas linhas. A guerra, a ocupação, a perseguição, a Gestapo, definem os limites. Mas há o desejo, um certo desejo, que não se poderia classificar sumariamente como sexualizado, mas do qual a fascinação pela sexualidade não está excluída, desejo que se insinua na narrativa como admiração pela mulher da rua Labat, descrita como uma imagem ideal de maternidade, de doçura, de nutrição:

 

Lá estava ela. Ela cuidava de sua irmã que sofria de um câncer no estômago. Ela aceitou nos abrigar por uma noite e nos ofereceu ovos nevados. Ela vestia um peignoir, eu a achei belíssima, doce e afetuosa. Quase esqueci o que nos tinha trazido até ela, naquela noite. (Cap. IX).

 

A “senhora” acabara de perder sua irmã e usava “luto fechado”. Ela estava vestida de preto e eu estava impressionada com o louro de seus cabelos e a doçura melancólica de seus olhos azuis. (Cap. XI)

 

O desejo é também desejo de olhar, curiosidade pelo que se mostra e se esconde – como na cena do biombo do quarto de hotel em que, perdido o último metrô, tiveram que passar a noite, para desespero da mãe que tinha ficado em casa, sem notícias da filha:

 

Vovó tinha se despido atrás de um grande biombo de madeira acaju e da cama, curiosa, eu tinha espiado sua aparição. Na rua Labat, para grande estupefação e irritação de minha mãe, ela tinha o hábito de passear no apartamento de pijama, com o peito descoberto, e eu ficava fascinada por seus seios nus. (Cap. XVI)

 

Como ela acaba dando a preferência à senhora contra sua mãe, a culpa segue o desejo de perto:

 

Quando eu estava doente, diferente de minha mãe, vovó não mostrava a menor afobação: depois de terem me adormecido com um balão de clorofórmio, acordo na cama do dispensário onde tinham me operado as amígdalas; as duas mulheres estão à minha cabeceira. Eu choro e grito de dor. Minha mãe começa a falar muito alto e a me lamentar e ídiche e quer avisar ao médico. Vovó, muito calma e sorridente diz: “Não é nada, e você vai poder tomar muito sorvete!” Paro logo de chorar. Sinto vagamente nesse dia que me separo de minha mãe e me ligo cada vez mais à outra mulher. (Cap. XII)

 

Dia das Mães: pego o dinheiro do meu “cofrinho” e vou sozinha à rua Custine comprar presentes para as duas mulheres: uma “redinha” e um pente, creio; levo também dois cartões postais. Um deles representa um rosto feminino todo sorrisos, o outro uma mulher sentada, acompanhada por um garoto de pé. Hesito um momento e escolho para vovó o primeiro, o que acho mais bonito dos dois. Envergonho-me e sinto-me enrubescer dentro da loja. Minha escolha acaba de ser feita, minha preferência declarada. (Cap. XIII)

 

O desejo entendido como desejo do olhar do outro, por sua abertura estrutural para esse outro olhar, implica ser por ele revelado, ainda que de modo truncado ou  preconceituoso. Jogo de múltiplas superposições em que o sujeito se vê refletido no espelho deformante do desejo do outro, na imagem que o outro compõe em seu discurso:

 

Ela me ensinou que eu tinha um nariz judeu fazendo-me apalpar a pequena protuberância que era o sinal disso. Ela dizia também: “A comida judaica é nociva à saúde; os judeus crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo; eles são todos avarentos e só amam o tutu (sic); eles são muito inteligentes, nenhum outro povo possui tantos gênios na música e na filosofia”. E ela me citava Spinoza, Bergson, Einstein, Marx. É de sua boca e nesse contexto que ouço pela primeira vez esses nomes que hoje me são tão familiares. (Cap. XIV)

 

A escrita aparece como movimento desejante, desejo de ressureição, de insurreição, um processo que busca uma espécie de recriação do sujeito como autor, que passaria assim a ser filho de ninguém, órfão, ou pai/mãe de si mesmo, inaugurando um nome novo, seu nome próprio, sua assinatura, ainda que com isso se congele “duplamente” em sua morte, pois, como sugere Derrida em texto sobre o “animal autobiográfico”, “Celui qui reçoit un nom se sent mortel ou mourant, justement parce que le nom voudrait le sauver, l’appeler et assurer sa survivance.” (DERRIDA, 1999, p.270). Morte contra morte, uma segunda morte, mas uma morte proposta e organizada pelos fluxos do desejo. Tal nome novo abre uma linha de fuga em relação a tantas mães, tantos nomes, tantas capturas:

 

(...) no dia da distribuição dos prêmios, eu atuava numa pequena peça cantada (Madame Capulet e sua vizinha Picarde), e fazia o papel de madame Capulet. A Senhora Aubault tinha tomado emprestado no hospital roupas de velha para mim e obtive um grande sucesso, fazendo todo o mundo rir com minha mímica. Minha mãe, toda orgulhosa, gritava bem alto: “É minha filha! é minha filha!” Eu tinha vergonha.

(No fim da última série, no liceu Jules-Ferry, os pais dos prêmios de excelência tinham sido convidados para a distribuição dos prêmios. “Esquecendo” que ela tinha tentado tudo para me fazer “parar” a escola e me obrigar a “trabalhar” como meus irmãos e irmãs, a fim de “trazer dinheiro para casa”, quando meu nome foi chamado, minha mãe repetiu a mesma cena, enquanto eu, no palco, teria desejado desaparecer sob a terra.) (Cap. XXII)

 

Estudante, moro na cidade universitária no pavilhão Deutsch de la Meurthe. Uma outra vida começa. Por vários anos, corto todo contato com vovó: não suporto mais ouvi-la me falar sem parar do passado, nem que ela possa continuar a me chamar seu “coelhinho” ou sua “galinhazinha”. (Cap.XXIV)

 

A escrita é o que permite traçar o mapa dessas regiões de si. A propósito da caneta do pai ausente, morto em Auschwitz, ela diz:

 

Dele só me resta a caneta. Eu a peguei certo dia na bolsa de minha mãe onde ela  a guardava junto com outras lembranças de meu pai. Uma canetas daquela que não se fazem mais e que se precisavam encher com tinta. Eu a usei durante todo o meu período escolar. Ela me “abandonou” antes que eu decidisse deixá-la. Eu ainda a tenho comigo, emendada com durex, está diante de meus olhos sobre a minha mesa de trabalho e me obriga a escrever, escrever.

Meus numerosos livros foram talvez caminhos oblíquos que tive que tomar para chegar a narrar “isto”. (Cap.I)

 

A caneta é, decerto, o paradigma de objeto “fetiche”, talvez não no sentido estritamente freudiano de substituto do pênis materno, denegação da castração, mas no sentido derridiano do termo, “(celui de l’Ersatz, du toc, de la prothèse originaire) qui ouvre l’espace du jeu, de l’oscillation, de l’indécidabilité où s’origine la littérature.” (KOFMAN, 1984, p.138-139). Frente à indecidibilidade da memória entre ausência e presença, o rastro do pai como prótese, sob a forma da caneta, faz correr a escrita segundo “caminhos oblíquos”.

Caminhos oblíquos, escrita sóbria - em função do caráter pungente do que é narrado. Frases curtas, simples: será a voz da criança que fala no texto autobiográfico de Kofman? A criança como lugar de um outro saber, como devir-jogo do saber totalizante. Dividimos com ela algo do sentido que escapa à compreensão, o caráter “sibilino” de algumas frases. O presente do verbo, tantas vezes adotado para narrar esse passado, presentifica e reforça uma enunciação que tem sua força na perplexidade da infância, sem concessões a nenhuma espécie de simplificação redutora.

O texto avança e, mais adiante na narrativa, as viagens começam a se fazer no espaço (Hendaye, Moissac, Sables d’Olonne...). Mas nenhuma delas é tão marcante quanto a simples travessia da rua Marcadet, que separa e une a Rua Ordener e a Rua Labat.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Mille plateaux. Paris : Minuit, 1980.

DERRIDA, J. L’animal que donc je suis. L’animal autobiographique. Autour de Jacques Derrida. Paris : Galilée, 1999.

KOFMAN, S. Rua Ordener, rua Labat. Rio de Janeiro : Caetés, 2000.

------. Ça cloche. Lectures de Derrida. Paris : Galilée, 1984.



[1] Cf. o dicionário Littré; a primeira acepção do termo diz: “Chemin qu'on fait pour aller d'un lieu à un autre lieu qui est éloigné.” ÉTYMOLOGIE: Berry, voyâge ; wallon, voyeg ; bourg. viaige ; mâconnais, vioge ; norm. viâge ; provenç. viatge ; espagn. viage ; portug. viagem ; ital. viaggio, du lat. viaticum, qui signifie provisions de voyage, mais qui est déjà pris au sens de voyage dans Venantius Fortunatus ; de via (voy. VOIE).

[2] As citações de trechos do texto de Sarah Kofman são tiradas da tradução brasileira, realizada por Paula Glenadel e Luiz Fernando Medeiros de Carvalho, em fase de preparação pela Editora Caetés, razão pela qual a numeração das páginas ainda não está definida.